A sala estava sendo inundada pela minha frustração e minha mente se expandia conforme a fumaça perfumava os cantos superiores do cômodo.
Eu estava sentada em um trono miserável, mas miserável em comparação a quê? O mundo estava perecendo sob a praga originada dessa nova Era das Trevas. Não havia medo, a revolta era sutil e a dor era uma opção apenas temporária.
Às minhas costas, aquilo que sempre desejei, cultivado e perpetuado apenas na minha mente, manifestado em meus misteriosos e místicos devaneios, estes que anelavam alucinadamente pelo pecado. A garganta dá um nó apertado, toda a inundação cessa, demonstrando todos os destroços por onde ela passou.
Eu queria ir, silenciosamente ir, mas a idade me tornou mais sensível em relação ao sentimento alheio. Eu possuía dependentes, responsabilidades… E em um momento de lucidez, percebi que depois de tudo eu estava voltando a ser covarde.
- Não queria estar aqui, nada me faria querer estar.
- Certamente não gostaria de voltar, e obviamente não tem para onde ir.
- Não consigo lidar com o que estou sentindo. E sozinha, tudo ainda fica mais difícil. Apenas não aceito, porém, que desdenhe da minha suposta fraqueza.
- E não há fraqueza?
- Não em quem me tornei. Sou uma guerreira, uma arquiduquesa, uma rainha e uma deusa!
- E alguém como você se renderia ao seu pior inimigo?
- Jamais!
- Então não se renda a si mesma.
Eu estava voltando a sentir o peso da existência. Eu estava silenciosa, sozinha, com desejos e frustrações. Ninguém poderia entender além dela que não queria estar aqui. Era injusto, insuportável. Eu continuava silenciosa. Meus demônios gritavam. E inexplicavelmente eu também estava entre eles.